• 'Se o coronavírus entrar aqui, vai ser uma tragédia', diz brasileiro em campo de refugiados na África


    Medidas cruciais no combate à pandemia de coronavírus, o distanciamento social e a higiene soam como piada de mau gosto em Dzaleka, campo de refugiados situado no Malawi, país ao sul do continente africano.

    No território, onde vivem cerca de 44 mil pessoas forçadas a deixar seus locais de origem por contingências diversas - sobretudo guerras - o número total de torneiras disponíveis é zero. Albergadas em grupos com dez, onze integrantes, elas se amontoam em tendas e casas precárias de 3 m². É o ambiente ideal para um massacre sanitário.

    O cenário é acompanhado de perto pelo professor, jornalista e narrador de futebol Evaldo Palatinski, único representante humanitário atualmente presente em Dzaleka. Voluntário da ONG Fraternidade sem Fronteiras (FSF), o brasileiro chegou ao campo em janeiro deste ano para atuar no projeto Nação Ubuntu, que mantém uma escola de educação infantil na região.

    Há quase quatro meses no acampamento, ele narra ao Estado de Minas o calvário de um povo que aguarda, impotente, por mais uma crise humanitária anunciada. 

    “A luta pela água é gigantesca. Começa muito cedo. Ela é retirada aos galões dos poços artesianos. Para 44 mil pessoas, há 16 poços. É com essa água que as pessoas cozinham e tomam banho. Estamos falando de recurso precioso que, quando vem a estiagem, fica ainda mais escasso. Recentemente, passamos a fabricar sabão e máscaras. O sentimento geral aqui é de que, se o vírus entrar no campo, vai ser uma grande tragédia”, conta Palatinski.

    Lockdown

    O surto global prorrogou a permanência de Evaldo no Malawi por pelo menos mais três semanas, já que o presidente Peter Mutharik estabeleceu 21 dias de lockdown (bloqueio) a partir de 18 de abril no país, no esforço de conter o surto de COVID-19.

    Essa é a mais rígida entre as modalidades de confinamento, pois inclui fechamento de fronteiras, limitação do deslocamento dos habitantes, manutenção apenas de serviços essenciais como saúde, segurança pública e coleta de lixo, e até lei seca. 

    Até o momento, 25 nações africanas fixaram o mesmo decreto, avaliado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como apropriado para um continente em que os sistemas de saúde são extremamente frágeis.

    Dados oficiais do governo malawiano apontam 23 casos confirmados de coronavírus e duas mortes pela doença até então. Em toda a África, são mil mortos e cerca de 20 mil infectados, segundo a OMS. Há grande probabilidade de subnotificação, já que o continente tem pouco acesso aos testes.

    Evaldo Palatinsk relata que não há registros de COVID-19 em Dzaleka, mas ninguém ainda foi testado. De acordo com o jornalista, o campo recebeu novos refugiados desde o início da pandemia, que não passaram por quarentena antes de serem integrados aos demais, o que torna factível a possibilidade de o vírus já estar circulando no local.

    Só há uma semana o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) criou uma área isolada dentro do território para receber os imigrantes que chegam. O isolamento deles teve início nesta quarta-feira (22).

    “É um espaço com 41 tendas, cada uma vai receber cinco pessoas. Elas ficam por lá por pelo menos 14 dias. Se, durante esse período, não apresentarem nenhum sintoma, serão liberadas para se instalar no campo. Os que tiverem algum sintoma serão removidos para outras tendas, cada uma com capacidade para acolher até 30 pacientes. A ACNUR está recrutando um médico e um enfermeiro para atuar em cada uma delas. O problema é que, se o vírus já estiver circulando, esse isolamento não terá efeito nenhum”, detalha Palatinski.

    Distanciamento impossível

    O cotidiano em Dzaleka descrito pelo voluntário da FSF eleva o potencial de contágio pela COVID-19 a um patamar catastrófico. Além da escassez de água e da superlotação das moradias, outra marca dos acampamentos de refugiados são as inevitáveis aglomerações. 

    Com a ausência de banheiros, há filas para o banho. A distribuição de comida nos refeitórios gera multidões que, por vezes, caminham sobre esgoto a céu aberto.  “Estamos tentando viabilizar aqui pelo menos a lavagem frequente das mãos. Por isso, a fabricação de sabão. Ela é especialmente importante dentro da tradição e da cultura africana, em que se come muito com as mãos”, observa.

    Em 20 de abril, a Fraternidade sem Fronteiras suspendeu as aulas na escola onde Evaldo atua, voltada a crianças entre 3 e 5 anos. A alimentação continua a ser fornecida aos 200 alunos e suas famílias.

    “Nós passamos a entregar alimentação que cada criança receberia na escolinha durante o mês. Hoje, nós mandamos para a casa delas 15 kg de milho, 3 kg de feijão, uma lata de óleo e 1 kg de açúcar para cada família. Temos também uma horta muito grande aqui, outra fonte de alimentos, mas não sei se vamos conseguir manter durante o lockdown”, diz o voluntário.

    Segundo Evaldo, outro projeto suspenso em função da pandemia foi campeonato de futebol local, organizado com 14 times - nove do campo e cinco do Malawi. "Uma pena, uma pena, porque já tinha até um patrocinador, que nos deu troféu, uniformes e bola oficial. A gente arrumou o campo das partidas, deixou tudo plano. Estava todo mundo motivado", lamenta.

  • 0 comentários:

    Postar um comentário

    SAIBA COMO AJUDAR

    Clique no link ao lado e confira com mais detalhes como você pode ajudar a Agência Missionária de Assistência Social a divulgar o Evangelho de Jesus Cristo e ajudar as famílias nas Aldeias da África.

    ENDEREÇO

    Rua José Bem-Vindo da Rosa, nº 174, Campos dos Goytacazes/RJ

    EMAIL

    projetoamas@hotmail.com
    projetoamasoficial@gmail.com

    CELULAR

    +55 22 99736-3130

    ORGANIZADORES

    Ezequias Samuel,
    Felipe Samuel,
    Cassiane Rosa,